Os dois grandes momentos da aborrecida e previsível (como habitual, diga-se de passagem) cerimônia do Oscar envolveram os mesmos personagens. O primeiro foi a maravilhosa apresentação da dupla Glen Hansard e Marketa Irglova, tocando “Falling Slowly”, do filme Once, que disputava o prêmio de melhor canção original. Como ficou evidente diante das outras apresentações, a canção está distante anos-luz dos concorrentes e merecidamente levou a estatueta. E então veio o segundo momento: ao fazer o agradecimento, Hansard acabou usando todo o mini-tempo concedido e Marketa foi cortada pela orquestra. Num raro momento de humildade e brilho, a produção percebeu a indelicadeza e após os comerciais a chamou novamente para que fizesse o seu discurso. Um gesto à altura do filme.
(Assistam antes que tirem do ar)
Once, filme irlandês (inédito no Brasil, e espero que não por muito tempo) realizado de maneira toda independente e em 17 dias, conta a história do Rapaz (Hansard, os nomes dos personagens não são revelados), músico de rua e com um relacionamento recém terminado, que encontra uma Garota (Irglova, uma graça), imigrante tcheca, que trabalha como empregada e cuida da mãe e da filha. A princípio parece existir uma química, algum sentimento, mas demais. Então ele descobre que ela arranha no piano e o filme cresce.
Drama, romance, musical? À medida que percebemos o que (não) há entre os dois, jogamos a busca de gênero para escanteio e nos focamos no que vai acontecer com os personagens no momento, sem expectativas. Com a câmera na mão nos sentimos mais perto dos dois, solitários cada qual a sua maneira, e nos tornamos mais cúmplices das transformações que as músicas farão em cada um deles.
As músicas são um caso a parte, todas belíssimas, servindo como um espelho da dupla, que ao cantarem, desabafam, e se preparam para tocar a vida em frente.
Delicado, doce e intenso, Once nos mostra que ao invés de um amor que nos cegue, às vezes precisamos de alguém que simplesmente nos faça enxergar.