Festival de Teatro de Curitiba (parte 1)



Mesmo gostando muito, o teatro sempre foi ofuscado no meu tempo livre ($$$$$) pelo cinema. Isso acarretou numa ignorância completa de companhias, diretores, atores do meio, enfim....Não entendo nada do assunto. Uma maneira de tentar compensar um pouco é com o Festival de Teatro de Curitiba, evento que aconteceu no fim de março e está na sua 16ª edição. Vem muita gente pra cá nessa época e acontecem peças em todos os lugares, de cozinha de hotel a academias de ginástica. Infelizmente é um festival mais conhecido pela quantidade do que pela qualidade, mas mesmo assim sempre tem MUITA coisa boa pra se ver. O grande problema é fazer uma grade e comprar os ingressos antes de esgotem. Com as dicas do Renato e do Michel consegui montar uma interessante, bem diversificada. Tem produção que há anos está em Cartaz aqui em Curitiba, tem a 'peça-cabeça', peças com "globais", dramas, comédias...enfim, atirei pra todo lado. No final de tudo, o resultado é médio, deixou a desejar em vários momentos mas também não foi de todo ruim.

Thom Pain - Lady Grey



A primeira e a mais esperada. Peça da Sutil Companhia de Teatro, dirigido pelo co-fundador Felipe Hirsch, que na minha ignorância ouvi falar a muito pouco tempo, possui a fama de criar peças super interessantes, inovadoras e premiadas, dessa vez nos trouxe dois monólogos de mais ou menos uma hora cada, onde cada um fala sobre vários assuntos, aparentemente desconexos mas que aos poucos se encaixam (ou deveriam se encaixar) numa referência a separação do casal. A primeira parte é muito bem sustentada pelo Guilherme Weber (também fundador da Companhia) e pelo texto cínico, ácido e até um pouco leve. Mesmo movimentando-se muito pouco no palco, Weber segura bem a platéia, fazendo algumas piadas com o entra e sai no teatro e com a possibilidade de fazer "bingo". Pena que depois conseguiu ficar a altura. Se na primeira Weber conseguiu evitar uma certa monotonia, nessa segunda ela ficou escancarada de vez. O texto difícil (pra mim, pelo menos), complexo e com a apagada Fernanda Farah tornou muito difícil acompanhar o que ela falava e muito menos tentar encaixar com a primeira parte. Pra complicar ainda mais, a (única) luz diminuía a medida que a peça chegava ao fim. No final, nem Farah tirando a roupa deixou o público mais animado e os aplausos mostraram isso. O próprio Hirsch disse em entrevistas que o público deveria se entregar. Eu tentei, fiz o que pude e quase dormi.

As Três Viúvas de Arthur



Fui mais na curiosidade de ver pessoalmente a Hermila Guedes e me surpreendi com uma peça simpatissíssima dividida em três atos. A peça é resultado do projeto O Aprendiz Encena, do Recife, onde procuram unir atores experientes com diretores novatos. Na peça, o Arthur no caso não é nenhum polígamo que morreu e sim o dramaturgo Arthur Azevedo. No primeiro ato, “Amor por Anexins”, contava com Hermila (que estava bem, mas estava com a voz um pouco baixa) num jogo de sedução e uso de provérbios. O segundo ato (e melhor), com uma divertida história com troca de papéis. A terceira, parecendo uma novela antiga, mas também engraçada. Mesmo escritas há cem anos ou até mais, todas as peças divertiram sem deixarem de dar umas cutucadas na sociedade da época, com piadinhas sobre casamento, traição e aversão a advogados (hehehehe). Um piano tocado ao vivo servindo como fundo musical dá um certo charme, parecendo aqueles filmes mudos antigos e engrandecem a obra como um todo.

Risorama

Tá, não é bem uma peça, mas entra aqui também. Já virou tradição esse evento paralelo ao festival, que reúnem pessoas para fazerem o stand-up comedy. Organizado por Diogo Portugal, sempre apareceram por grandes nomes do mundo da comédia. Foram pouco mais de duas horas de muitas risadas. Alguns deles aparecem em geral na TV, mas é curioso como os formatos desses programas não conseguem explorar toda a graça do ator. Um deles até se apresentou como "o redator da Zorra Total, mas muito gente boa", e realmente foi muito engraçado. Um outro comediante (que esqueci o nome), participa da Praça é Nossa, mas não chega nem aos pés do que é ao vivo. Rafael Bastos, ou Rafinha, que volta e meia aparece em propagandas e esteve no seriado do GNT Mothern, foi o mais engraçado, com piadas rápidas e boas sacadas. E o local do evento, o belíssimo Clube Concórdia, também contribuiu para fazer valer o ingresso!

A Hora e a Vez de Augusto Matraga



Sem dúvidas a melhor peça que assisti nesse festival. Baseada em um conto do livro Sagarana de Guimarães Rosa, o trabalho do diretor André Paes Leme utilizou muitas músicas (criadas por Alex Dias) para valorizar o texto de Rosa e mesmo assim não deixou a peça com jeito de musical. Em vários momentos da peça são utilizados elementos que se transformam em metáforas com as ações em cena, como o pedaço de carne e uma carroça. O elenco de apoio é extremente útil para que isso tudo funcione com muita competência. O espancamento de Matraga e o sol subindo e descendo em retrato ao um dia de calor foram grandes idéias e agradam aos olhos. Há também um grande trabalho de iluminação e cenografia, onde tudo que há no palco é fundamental para a trama. E tudo seria em vão se não existisse um grande elenco, e todos mostram muito talento, em especial Brichta que interpreta e canta com muita intensidade, pegada e ternura, assim como parece ser o conto de Guimarães. Nota 10.


Escrito por Marlonn às 14h58
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